O local onde Júlio César foi assassinado em 44 a.C., agora lar dos restos impressionantes de templos da era republicana situados abaixo do nível da rua moderna.
Bem-vindo a Roma — a cidade que conquistou um mundo e depois consumiu-se a si própria a partir de dentro. Está no Largo Argentina, uma das praças com maior carga política da história da humanidade, onde os ecos da ambição, da traição e da morte de uma república parecem ainda perdurar nas pedras da calçada. Nas próximas duas horas, percorreremos quase cinco séculos do maior paradoxo da civilização: como uma sociedade construída sobre ideais cívicos e o Estado de direito se transformou gradualmente em algo governado por imperadores divinos e ambição infinita. Avançaremos pela cronologia arquitetónica do próprio poder — desde os templos modestos e espaços de reunião da República até aos projetos de vaidade monumental de imperadores que se consideravam deuses. Esta não é uma história de progresso, nem de declínio, mas algo muito mais humano: como as instituições se corroem, como o poder corrompe e como as mesmas mãos que construíram maravilhas também construíram a sua própria destruição. Por isso, mantenha os olhos abertos, confie na sua imaginação e lembre-se: cada monumento que vemos hoje foi construído por pessoas que pensavam que o seu sistema duraria para sempre.
Bem-vindo ao Largo Argentina — ou, mais precisamente, bem-vindo a uma cena de crime. Não uma cena moderna, mas um dos assassinatos mais consequentes da história, que ocorreu aqui nos Idos de Março de 44 a.C. O homem que morreu nesse dia foi Júlio César, a figura mais poderosa de Roma. A forma da sua morte — esfaqueado vinte e três vezes por senadores em quem confiava — diz-lhe tudo o que precisa de saber sobre como o poder realmente funcionava em Roma. Era pessoal. Era violento. E era, no fim de contas, inescapável.
Mas antes de falarmos sobre o sangue de César no mármore, precisamos de entender o que este lugar realmente é. Olhe para baixo. Bem para baixo. Repare como o chão sob os nossos pés desce subitamente? Essas ruínas que pode ver ao nível da rua — as colunas, as pedras espalhadas, as estranhas fundações geométricas — são o que resta dos templos da era republicana. Estamos a olhar para estruturas que são anteriores ao próprio César, que são anteriores ao próprio império que visitaremos ao longo deste passeio. Estes são os ossos de uma Roma totalmente diferente: a República, aquela grande experiência constitucional que deveria ter evitado precisamente o tipo de governação de um só homem que César representava.
A República, no seu melhor, foi construída sobre um princípio simples: nenhuma pessoa deveria deter um poder sem controlo. O Senado — mais de trezentos aristocratas que se aglomeravam na casa do Senado não muito longe daqui — deveria ser a autoridade máxima. Os cônsules eram eleitos anualmente, precisamente para que ninguém pudesse governar para sempre. O sistema tinha até controlos integrados, sendo o mais famoso o veto — literalmente, 'eu proíbo'. Tudo foi concebido para impedir um tirano. E durante cerca de cinco séculos, funcionou quase sempre.
Depois veio César. Agora, César não era um monstro quando nasceu em 100 a.C. Era apenas mais um aristocrata a jogar o jogo do poder que todos os ambiciosos romanos jogavam. Mas ele era excecionalmente bom nisso. Conquistou a Gália — a atual França e além — e, ao fazê-lo, tornou-se fabulosamente rico e extremamente popular. Os soldados amavam-no. O povo comum adorava-o. Mas o Senado? O Senado ficou cada vez mais aterrorizado. Aqui estava um homem com um exército dedicado, uma riqueza sem precedentes e uma ambição sem limites. Ele era tudo o que o sistema republicano tinha sido concebido para evitar.
Por isso, César fez o que os homens poderosos em Roma tinham feito durante séculos: contornou as regras e depois quebrou-as. Marchou com o seu exército em direção à própria Roma — um ato de guerra, tecnicamente — e o Senado fugiu em pânico. Em 44 a.C., ele era, efetivamente, um ditador, embora fingisse ser apenas o primeiro cidadão entre iguais. Chegou a rejeitar uma coroa oferecida numa cerimónia pública, o que foi ou genuinamente modesto ou magistralmente teatral. Provavelmente nunca saberemos.
O que sabemos é que no dia 15 de março de 44 a.C. — os Idos de Março, no calendário romano — César compareceu a uma reunião do Senado. Talvez tenha sido descuidado. Talvez pensasse que o Senado estava demasiado assustado para agir. Talvez os seus amigos o tivessem convencido de que estava seguro. Quando tomou o seu lugar no Teatro de Pompeu perto daqui, rodeado pelos seus colegas senadores, mais de sessenta homens sacaram das suas adagas. Quando acabou, César jazia morto no chão de mármore.
Os conspiradores, liderados por Brutus e Cassius, acreditavam que tinham salvado a República. Não salvaram. Em vez disso, destruíram-na. O assassinato desencadeou guerras civis que durariam treze anos e acabariam por entregar o poder ao herdeiro de César, Octaviano — que logo se tornaria Augusto, o primeiro imperador. A República que eles tinham morrido a tentar proteger tinha desaparecido para sempre. O Império que eles temiam tinha chegado na mesma.
Por isso, enquanto olha para estes templos republicanos afundados sob os nossos pés, lembre-se: este é o lugar onde o idealismo encontrou a ambição, e o idealismo perdeu. A lição que Roma nos ensinará ao longo deste passeio é esta: o poder corrompe, o poder concentrado corrompe absolutamente, e a violência em Roma não era um erro — era uma característica.
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