O segredo mais perfeitamente enquadrado de Roma: incline-se e espreite através de uma fechadura de bronze no portão privado dos Cavaleiros de Malta, e a cúpula de São Pedro aparecerá suspensa num túnel de ciprestes e louros.
Roma tem duas cidades numa só. Existe a Roma que todos veem — o Coliseu, o Vaticano, a Fontana di Trevi, as filas para o gelado. E depois existe a Roma que se esconde atrás de portas sem sinalização, no cimo de colinas tranquilas, dentro de pátios que a maioria dos guias ignora.
Esta visita é sobre essa segunda Roma. Ao longo de dez paragens, vamos espreitar por fechaduras, passar por entradas anónimas e entrar em espaços que variam desde uma igreja do século V, mais vazia do que a sua própria sala de estar, até a um bairro inteiro que parece ter sido desenhado por alguém que leu contos de fadas a mais. O fio condutor é simples: as melhores coisas de Roma não se anunciam. Elas esperam para ser encontradas.
Comece cedo, se puder — a colina do Aventino é mais silenciosa antes de os autocarros turísticos chegarem, e a luz através da fechadura é melhor de manhã.
Bem-vindo ao primeiro ato. Está na Piazza dei Cavalieri di Malta, na colina do Aventino, prestes a ver algo que o fez subir até aqui, mesmo que ainda não soubesse.
Existe um portão. Parece oficial — austero, até. Ferragens em bronze. Esculturas ornamentais por todo o lado. Escudos de pedra. Lanças esculpidas. Esta é a entrada privada da Villa del Priorato di Malta, desenhada em 1765 por Giovanni Battista Piranesi, o lendário arquiteto veneziano que fazia os edifícios sussurrarem as suas histórias na pedra. Toda a praça também é sua. Encheu-a com motivos geométricos e relevos heráldicos que celebram a Ordem Soberana Militar de Malta, os cavaleiros medievais que ocuparam este mosteiro fortificado há séculos e que nunca realmente partiram.
Mas esqueça a arquitetura por um segundo. Olhe para a fechadura.
É pequena. Modesta. Quase que pede desculpa. Incline-se, aproxime o olho do bronze e espere pelo truque. Lá está ela — a cúpula de São Pedro. A obra-prima de cobre verde de Miguel Ângelo, sentada no fim do que parece ser um telescópio natural. Um perfeito corredor verde de louros e ciprestes aparados conduz o seu olhar diretamente para ela, a 250 metros de distância, mas comprimida. Enquadrada. Possuída.
Isto não é um acidente. Piranesi construiu este portal e encheu os jardins com sebes e louros de tal forma que a cúpula flutua exatamente no centro da sua vista pela fechadura. Criou o que os romanos chamam de "occhio di Roma" — o olho de Roma — um telescópio vivo. Se ele planeou este alinhamento precisamente, ou se o construiu e o alinhamento aconteceu como um presente, ninguém sabe realmente. Mas, de qualquer forma: ele fez uma porta que não é uma porta. Fez uma fechadura que não é apenas uma fechadura. Fez um segredo que não é bem um segredo, porque milhares de pessoas espreitam por lá todos os anos.
Eis o que ninguém lhe diz: através desta fechadura, tecnicamente está a olhar para três países ao mesmo tempo. Itália, Cidade do Vaticano e a Ordem Soberana Militar de Malta — que tem o seu próprio estatuto territorial concedido pelo governo italiano. Uma santíssima trindade de soberania, contida num círculo de bronze do tamanho de uma moeda de um euro.
É assim que Roma funciona. Não em grandes monumentos ou praças cheias. Mas em fechaduras. Em ângulos. Naquilo que só se vê se souber onde se ajoelhar e olhar.
Essa é a primeira paragem, dentro do próprio passeio. As 9 paragens restantes, o mapa e o percurso entre elas abrem-se com uma conta gratuita.
Continuar o passeioO passeio escrito é gratuito.
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