As muralhas medievais de pedra de Girona ainda ostentam as marcas e sulcos dos disparos de canhão franceses do cerco de 1809. Ao longo de sete meses, 40 baterias de artilharia francesas dispararam 20.000 granadas explosivas e 60.000 balas de canhão contra estas fortificações, sulcando a pedra e expondo a vulnerabilidade de muralhas que não eram modernizadas há um século.
Bem-vindo a Girona em 1809. Em poucos instantes, você estará onde 5.700 defensores e 13.000 civis enfrentaram 35.000 dos melhores soldados de Napoleão. Durante sete meses, esta pequena cidade recusou-se a cair. A Grande Armée — a força militar mais temida da Europa — cercou estas muralhas, e Girona resistiu. Os canhões trovejaram. As muralhas desmoronaram. As pessoas passaram fome. Contudo, a cidade nunca se rendeu sob seus próprios termos. Nos próximos 100 minutos, caminharemos 1,07 quilômetros pelo centro histórico de Girona, seguindo as cicatrizes daquele cerco. Você subirá nas muralhas, verá onde as balas de canhão atingiram a pedra e ficará nos locais onde pessoas comuns fizeram escolhas extraordinárias. O caminho é moderado — com escadas e caminhada sobre a muralha —, mas a história é inesquecível. As muralhas que você está prestes a tocar ainda carregam suas feridas. Estas não são apenas pedras. Elas são testemunhas. Coloque sua mão na pedra. Sinta-a. Os sulcos e marcas que você está tocando são danos reais — não reproduções pintadas, nem imaginação de artistas. É isto que 20.000 granadas explosivas e 60.000 balas de canhão fazem à pedra medieval. Você está de pé sobre as muralhas que mantiveram a Grande Armée de Napoleão à distância durante sete meses. De maio a dezembro de 1809, 35.000 soldados franceses e vestfalianos lançaram tudo o que tinham contra esta pequena cidade. Contra eles, estavam 5.700 soldados espanhóis e 13.000 civis presos lá dentro. Os números não mentem: Girona estava matemática e logisticamente superada de forma avassaladora. E, ainda assim, recusou-se a render-se. Esta não foi a primeira luta de Girona. A Guerra Peninsular já assolava a Espanha há um ano antes de o general francês Louis-Gabriel Suchet trazer suas forças para cá em maio de 1809. Cercos anteriores em 1808 testaram estas muralhas, mas o terceiro cerco — aquele que marcou as pedras sob seus dedos — foi algo inteiramente diferente. Esta foi uma guerra de cerco em escala industrial. Foi a máquina militar de Napoleão em sua intensidade máxima e esmagadora. O comandante Álvarez sabia o que enfrentava. Ele sabia que as muralhas ao seu redor eram relíquias — não tinham sido seriamente modernizadas desde a Guerra da Sucessão Espanhola, mais de cem anos antes. Fortificações medievais projetadas para resistir a máquinas de cerco medievais. Contra o quê? Contra artilharia de campanha que podia perfurar pedra a quatrocentos metros de distância. Contra um exército francês que não negociava. Saint-Cyr, o comandante francês, organizou metodicamente 40 baterias de armas em um arco ao redor da cidade. Quarenta. Não um punhado de canhões — quarenta posições de artilharia, cada uma cuidadosamente posicionada para varrer as muralhas com fogo cruzado. Dia e noite, durante sete meses, aquelas baterias martelaram. As muralhas de pedra não podiam suportar seus próprios canhões pesados — eram muito finas, construídas para uma era diferente de guerra. Então, Girona teve de absorver um castigo que mal podia retribuir. Observe o padrão dos danos. Veja como algumas cicatrizes são profundas? Essas vieram das granadas explosivas — a artilharia de Saint-Cyr era moderna, capaz de disparar granadas que detonavam no impacto ou após penetrarem a pedra. Outras marcas são mais superficiais — balas de canhão que ricochetearam ou atingiram em ângulo. Em agosto, o bombardeio conseguiu criar quatro brechas separadas nas muralhas principais. Os defensores tiveram de correr para consertá-las, sabendo que mais fogo estava por vir. Sempre mais fogo. Mas olhe com atenção. Apesar das cicatrizes, as muralhas ainda estão de pé. Estas pedras resistiram. Estão quebradas, sim. Feridas, absolutamente. Mas ainda verticais. É isso que você precisa entender aqui: as muralhas medievais que os franceses pensaram que desmoronariam em semanas, resistiram, na verdade, a sete meses de incessante assalto de artilharia. A pedra medieval fina que Álvarez sabia ser inadequada, de alguma forma — de alguma maneira — permaneceu uma barreira que não pôde ser final e fatalmente rompida. Aquela torre que você verá logo à frente recebeu o pior do impacto. Você a reconhecerá pelo dano. Mas primeiro, entenda isto: o que você está vendo aqui, essas cicatrizes, não são aleatórias. Elas representam estratégia, cálculo, desespero. Os artilheiros franceses sabiam exatamente onde mirar. Os defensores de Girona sabiam exatamente o que aconteceria se aquelas muralhas caíssem. E a população civil lá dentro — os 13.000 homens, mulheres e crianças — viveu com o som da artilharia dia após dia, observando as pedras que os mantinham vivos desintegrarem-se lentamente. As muralhas não caíram. E a cidade também não. Essa história — como Girona resistiu quando deveria ter cedido, por que isso importava e qual foi o custo — é o que essas cicatrizes estão aqui para lhe contar.
Essa é a primeira paragem, dentro do próprio passeio. As 6 paragens restantes, o mapa e o percurso entre elas abrem-se com uma conta gratuita.
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